A SOLIDÃO DA VIDA PRIVADA
Uma homenagem a um dos maiores escritores do Cerrado:Adolar Gangorra !!!!
Está mais do que provado que o homem é um ser puramente social. Nãovive sozinho nem à cacete. Por isso, foi adaptando todas as suasnecessidades ao coletivo. Pode-se nascer, crescer, comer, dormir, sereproduzir e até morrer com, pelo menos, alguém do lado. Entretanto,existe uma atividade fundamental que foi arrancada do testemunho dogrupo. Condenada a um exílio eterno e sem direito a julgamento.Refiro-me, com pesar, ao solitário ato defecativo, o famoso "fazercocô", este injustiçado eremita do destino.
O "cocô diário" é imprescindível para a boa saúde do organismo,porém é tratado como uma vergonhosa anomalia biológica. Todo mundofaz, mas ninguém admite: "Desculpe professor, cheguei atrasado hojeporque estava cagando em casa!" Esta frase não passa de uma utopiamaravilhosa porque a sociedade resolveu omitir o cagar por ainda nãoestar preparada para entender sua grandeza e importância.
Por que somos obrigados a fazer cocô sozinhos? Ninguém saberealmente. A desculpa esfarrapada que cagar é nojento e repugnante nãoconvence nem o mais ingênuo dos mortais. Certos programas de televisãoque estão por aí são muito mais repulsivos. A verdade é que se o serhumano tivesse se habituado a obrar na frente do seu semelhante teriadesenvolvido enormemente a virtude da tolerância e hoje não teríamosconflitos de nenhuma espécie; brancos abraçariam negros, judeusrezariam com árabes, palmeirenses incentivariam corinthianos, genrosodiariam sogras e vice-versa. Porque ao cagar e ver cagar, o homem sehumanizaria. Aceitaria melhor o íntimo alheio. Não idealizaria aperfeição e assim seria incapaz de exigi-la do seu próximo. Ali,agachado com as mãos na barriga e com a testa franzida, o indivíduo éapenas mais um cagão, desprovido de vontades, status, quimeras epaixões. É somente e tão somente um manso de espírito, de mente e retoabertos para o Universo.
A todo o momento a sociedade tenta desesperadamente esquecer quetodos os seus 6,5 bilhões de membros fazem cocô todo santo dia... ecomo fazem! É lei imutável da Natureza. Porém, tudo é arranjado paraque nem você se lembre de defecar: "O que? Deve estar havendo algumengano. Eu não faço este tipo de coisa!", ou então: "Quem? Eu?Sinceramente, Fontana, eu nunca fiz um bostolete na vida!" A família,A Igreja, o Exército, a publicidade, todos teimam em ignorar oresultado da digestão custe o que custar. Ninguém gosta de imaginar aXuxa fazendo uma força dos diabos na privada, só que a verdade nua ecrua > é que é que a rainha dos baixinhos também estrangula o morenotodo o dia no seu "trono".
Cindy Crawford? Linda... sexy... perfeita... demite o tolentinoassim que lhe dão uma chance! Bruna Lombardi? É só lembrar do seuprograma de tv para notar a sua enorme intimidade com a arte de pintara louça de marrom. Kim Bassinger? Caga. Gisele Bundchen? Também caga.Sharon Stone? Faz mais cocô do que eu e você juntos! Até os objetosrelativos ao universo merdal tentam inutilmente fantasiar a realidade.Veja só: vaso sanitário, toilete, papel higiênico, banheiro, etc.Banheiro? Como se o banho fosse a coisa mais importante a ser feitanesse aposento! Banheiro, uma conversa! O nome certo deveria ser"cagueiro"!
Infelizmente, um retrato da farsa em que vivemos pode ser encontradonum famoso verso popular que diz: "Quando cago, sinto uma solidãoprofunda. A bosta bate na água e a água bate na bunda" Um dia, talvez,poderemos ler em uma prosaica parede de banheiro (ou cagueiro):"Quando cago, me sinto aliviado, pois posso conversar com esse cagãoaqui do meu lado."
Adolar Gangorra, 58 anos, é editor do periódico humorístico Os Reisda Gambiarra e faz na sua vida pública o mesmo que faz na privada.
Nenhum comentário:
Postar um comentário